PROURB
Calibrador Web

Testes Comparativos

Avaliação de precisão: Sonômetro Classe 1 vs Smartphone

1. Introdução

Este documento apresenta os resultados do primeiro teste comparativo entre o sonômetro Svantek 971A (Classe 1, IEC 61672-1) e o microfone MEMS interno de um smartphone Samsung Galaxy A55, utilizando o Calibrador Web (PWA) como software de captura.

O objetivo é quantificar a precisão do smartphone como instrumento de medição de ruído ambiental urbano e identificar as limitações do microfone interno, como etapa preparatória para testes com o microfone externo calibrado Dayton Audio iMM-6C (USB-C, omnidirecional).

Svantek 971A
Svantek 971A
Sonômetro Classe 1, IEC 61672
Dayton Audio iMM-6C
Dayton Audio iMM-6C
Mic. calibrado USB-C (próxima etapa)
Data: 26/02/2026, 17:43–17:52 (UTC-3)
Local: Belo Horizonte, MG — ponto fixo (−19.925°, −43.937°)
Amostragem: LAeq 1s (ambos os instrumentos)
Pares válidos: 359 (overlap de 358s, tolerância 0.6s)

2. Metodologia

O Svantek 971A (referência Classe 1) e o smartphone foram posicionados lado a lado, com os microfones a ~10 cm de distância, orientados na mesma direção. Ambos registraram LAeq a cada 1 segundo durante ~7 minutos em ambiente externo urbano.

Sincronização temporal

Os relógios não foram sincronizados previamente. O alinhamento foi feito por nearest-neighbor matching com tolerância de 0.6s, resultando em 359 pares válidos de 433 leituras do Svantek (83%).

Séries temporais
Diferenças
Médias móveis 10s

Descritores estatísticos

Além do pareamento segundo-a-segundo, foram calculados descritores acústicos padronizados (ISO 1996-2):

  • Leq — nível equivalente contínuo (média energética)
  • L10 — nível excedido 10% do tempo (ruído de pico)
  • L50 — mediana (nível excedido 50% do tempo)
  • L90 — nível excedido 90% do tempo (ruído de fundo)
  • L95, Lmin, Lmax — extremos da distribuição

3. Descritores Leq e Ln

DescritorSvantek (dB)Celular (dB)Δ (dB)Avaliação
Leq67.862.3−5.5Ruim
L1063.658.0−5.6Ruim
L5056.554.0−2.5Bom
L9044.643.0−1.6Bom
L9544.142.0−2.1Bom
Lmin42.640.0−2.6Bom
Lmax87.480.0−7.4Ruim
Descritores comparativos

Faixa dinâmica (L10−L90): Svantek = 19.0 dB  |  Celular = 15.0 dB (compressão de 21%)

Curva cumulativa Ln
Observação: Os descritores dominados por picos (Leq, L10, Lmax) apresentam os maiores erros, enquanto os indicadores de fundo (L50, L90, L95) ficam dentro de ±3 dB — faixa aceitável para triagem urbana.

4. Métricas de Erro

MétricaTodos os pares (N=359)Sem outliers |Δ|≤15 dB (N=315)
MAE6.8 dB4.5 dB
RMSE9.8 dB5.5 dB
Bias (cel−sv)−1.2 dB−1.1 dB
0.0760.379
Correlação scatter

Erro por faixa de SPL

Faixa (dB)NOffset médioStdAvaliação
40–50148+5.4 dB9.7Inflação
55–60142−3.2 dB2.0Aceitável
60–6531−4.7 dB3.1Limítrofe
65–706−11.6 dB1.5Saturação
70–8022−20.6 dB3.1Saturação severa
80–904−24.9 dB3.6Saturação total
Offset por faixa
Histograma das diferenças

5. Inferências

1. Compressão não-linear acima de 65 dB

O microfone MEMS satura progressivamente: na faixa 70–80 dB o offset médio é de −20.6 dB, e acima de 80 dB chega a −24.9 dB. O Leq (dominado energeticamente pelos picos) sofre erro de −5.5 dB, enquanto o L90 (ruído de fundo, 40–50 dB) tem erro de apenas −1.6 dB.

2. Faixa dinâmica comprimida

O Svantek registra L10−L90 = 19.0 dB; o celular comprime para 15.0 dB. O MEMS subestima picos (L10: −5.6 dB) e infla mínimos, reduzindo a faixa dinâmica percebida em ~21%.

3. L50 como melhor indicador

A mediana (L50) apresenta o melhor equilíbrio: Δ = −2.5 dB, dentro da faixa aceitável para triagem urbana. O L90 (Δ = −1.6 dB) também é confiável.

4. Leq comprometido pelo efeito de saturação

O Leq energético é dominado pelos picos (caminhões, ônibus). Como o MEMS comprime justamente esses picos, o Leq do celular (62.3 dB) fica 5.5 dB abaixo do Svantek (67.8 dB) — erro inaceitável para fins normativos.

5. Calibração por offset fixo é insuficiente

O app aplica offset de ~94.0 dB (dBFS → dB). O offset ideal seria ~95.2 dB, mas a variabilidade (σ = 9.7 dB) torna a correção linear inadequada para a faixa completa. Uma curva de correção não-linear seria necessária para o mic MEMS.

6. O papel da captação omnidirecional

O microfone MEMS do smartphone não é projetado para medição acústica: sua captação é influenciada pela posição do aparelho, pelo corpo do dispositivo (que causa difração e sombreamento acústico acima de 2 kHz) e por algoritmos de cancelamento de ruído e beamforming que alteram o sinal antes de chegar à Web Audio API.

O Dayton Audio iMM-6C emprega uma cápsula eletreto condensadora de 6 mm com padrão polar verdadeiramente omnidirecional: capta pressão sonora de todas as direções com resposta uniforme (±0.5 dB, 18–20 kHz). Isso é um requisito da IEC 61672-1 para medição de ruído ambiental, onde o som chega de múltiplas fontes simultâneas (tráfego, pedestres, comércio, fauna) sem direção preferencial.

Padrão polar omnidirecional iMM-6
Padrão polar do iMM-6 — resposta omnidirecional uniforme

O que significa captação omnidirecional?

Um microfone omnidirecional responde igualmente à pressão sonora independente do ângulo de incidência. Na prática, o operador não precisa apontar o microfone — qualquer orientação produz a mesma leitura (diferença < 0.5 dB), eliminando o erro de posicionamento que afeta o MEMS.

Por que isso viabiliza a coleta com smartphone?

  • Sem processamento intermediário: o iMM-6C possui ADC próprio (CM6542, THD+N: 0.001%) via USB-C, contornando o pré-amplificador do celular — a principal fonte de não-linearidade observada neste teste.
  • Faixa dinâmica de ~30 a 120 dB, cobrindo desde ambientes silenciosos (parques, L90 ~40 dB) até vias arteriais com tráfego pesado (L10 ~75 dB).
  • Calibração individual de fábrica + calibração cruzada com Svantek: permite offset fixo confiável (ao contrário do MEMS, onde o offset varia com o SPL).
  • Precisão verificada em laboratório: ±0.2 dB de sensibilidade, resposta dentro dos limites IEC 61672 Classe I.
CaracterísticaMic MEMS (interno)Dayton iMM-6C
Padrão polarIrregular (corpo do aparelho)Omnidirecional (±0.5 dB)
Faixa útil~45–60 dB~30–120 dB
LinearidadeNão-linear (saturação >65 dB)±0.2 dB
ADCPré-amp do celularCM6542 dedicado (USB-C)
Beamforming/ANCSim (altera sinal)Não
CalibraçãoGenéricaIndividual de fábrica
IEC 61672Não atendeClasse I (verificado)

7. Estado da Arte — Precisão do Mic Interno

A literatura científica recente apresenta um padrão consistente com os resultados obtidos neste teste: o microfone MEMS interno dos smartphones satura acima de 65 dB e infla valores abaixo de 50 dB. A faixa de 50–60 dB é onde todos os estudos reportam melhor desempenho.

EstudoResultadoDispositivos
Kardous & Shaw (2016) — JASA Sem mic externo: desvio 1.6 ± 3.8 dB (range −14 a +11.3).
Com mic externo (iMM-6): ±1 dB
iOS
Zamora et al. (2017) — Sensors Após calibração linear: erro 0.02–0.03% (~0.1 dB), faixa 35–95 dB Android
Khan et al. (2025) — Cureus 9/10 apps Android com R² > 0.90 em níveis baixos; precisão degrada em SPL alto Samsung A54
NIOSH SLM (2024) — Sci. Reports Com mic externo calibrado: ±1 dB(A), range 65–95 dB. Classe 2 IEC 61672 iOS

8. Abordagens de Calibração na Literatura

a) Offset fixo (mais simples)

Cada modelo de smartphone recebe um offset em dB determinado contra um sonômetro de referência. Funciona bem em faixa limitada (~20 dB de range). É o método que nosso Calibrador Web utiliza atualmente (~94 dB de offset).

Limitação: não corrige a não-linearidade observada neste teste — o offset varia de +5.4 dB (faixa 40–50) a −24.9 dB (faixa 80–90).

b) Regressão linear por modelo

Zamora et al. (2017) aplicaram regressão linear (slope ~1.07) ao dBFS bruto. Após ajuste, o erro cai para <0.1 dB na faixa de operação. Requer medição com referência em 2–3 níveis de SPL (ex: 50, 70, 90 dB).

c) Calibração cruzada smartphone–smartphone

O projeto NoiseCapture (Univ. Gustave Eiffel / CNRS) implementa modo "Transmitter/Receiver": um smartphone calibrado calibra outros por comparação em ruído ambiente. O protocolo documentado leva ~5–10 minutos por dispositivo, com threshold de ±1 dB.

d) Calibração cega (sem referência)

Boumchich et al. (2024) propuseram o Natural Graph Model: quando múltiplos smartphones passam pelo mesmo local, suas leituras cruzadas permitem estimar o offset de cada um sem dispositivo de referência. Testado em Rezé (França) com 331 pares smartphone/usuário — erro médio de −3.4 dB com 100+ links por sensor.

e) Calibração por modelo de tráfego

Medir ruído de veículos passando e comparar com modelo numérico (ex: CNOSSOS-EU). O delta serve como offset — sem necessidade de sonômetro de referência. Abordagem prática para cidadãos sem equipamento.

9. Microfone Externo Calibrado — Evidências

O estudo de referência para validação de microfones externos em smartphones é Kardous & Shaw (2016), publicado no Journal of the Acoustical Society of America:

"O uso de microfones externos calibrados melhora dramaticamente a precisão e a precisão das medições de ruído baseadas em smartphone."
CondiçãoDesvio médioRange
Mic interno MEMS1.6 dB−14 a +11.3 dBvariável
Com Dayton iMM-6<1 dB±1 dB>0.98

O iMM-6C (USB-C) é a evolução do iMM-6 (TRRS) testado nesse estudo — mesma cápsula eletreto de 6 mm, agora com ADC digital dedicado (CM6542) via USB-C, eliminando a variabilidade do pré-amplificador analógico do celular.

Lacuna na literatura: Os estudos existentes validaram o iMM-6 analógico (TRRS). O iMM-6C com ADC digital USB-C é mais recente e menos estudado. Nossos testes com o iMM-6C contribuirão para preencher essa lacuna.

10. Projetos de Crowdsourcing com Smartphones

ProjetoEscalaCalibraçãoStatus
NoiseCapture (França) 260K tracks, 60M leituras, 76K contribuidores Cruzada + calibrador Ativo, open-source
NoiseTube (Bélgica) Pioneiro (2010) Por modelo Descontinuado
NIOSH SLM (EUA/CDC) Ocupacional Calibrador acústico Ativo, iOS only

O NoiseCapture, desenvolvido pela Universidade Gustave Eiffel e pelo CNRS, é a referência mais relevante para o nosso contexto: open-source, com protocolo de calibração documentado, e escala comprovada (260 mil medições, 76 mil contribuidores em 3 anos). Calcula os mesmos descritores que utilizamos (Leq, L10, L50, L90).

A diferença do nosso projeto é o foco em calibração cruzada com sonômetro Classe 1 e microfone externo USB-C, visando maior precisão que o crowdsourcing generalista.

11. Implicações para o Projeto

Com base na revisão da literatura, a estratégia mais promissora para adensar a malha de medições em Belo Horizonte (de ~2.2 para ~5+ pontos/km²):

  1. iMM-6C + offset fixo — a literatura confirma que com microfone externo calibrado, offset fixo é suficiente para alcançar ±1 dB de precisão.
  2. Calibração cruzada com Svantek em 2–3 níveis de SPL para validar a linearidade do iMM-6C e determinar o offset ótimo.
  3. Protocolo NoiseCapture como referência para transferência de calibração entre smartphones equipados com iMM-6C.
  4. A-weighting em software — o Calibrador Web precisará implementar filtro digital A-weighting para compliance regulatória. Nenhum dos apps Android testados na literatura implementa esta funcionalidade.
Contribuição original: A validação do iMM-6C (USB-C, ADC digital) contra sonômetro Classe 1 com análise Leq/Ln é inédita na literatura. Os estudos existentes validaram apenas o iMM-6 analógico (TRRS). A conversão A/D dedicada do iMM-6C elimina a principal fonte de variabilidade — o pré-amplificador do celular — o que pode representar um avanço significativo na viabilidade de medições com smartphones.

12. Referências

IEC 61672-1:2013 — Electroacoustics — Sound level meters — Part 1: Specifications. IEC Webstore.
ISO 1996-2:2017 — Acoustics — Description, measurement and assessment of environmental noise — Part 2. ISO.
NBR 10.151:2019 (Errata 1:2020) — Medição e avaliação de níveis de pressão sonora em áreas habitadas. Manual ProAcústica.
Svantek 971A — Class 1 Sound & Vibration Analyser. Svantek.
Davy J.L. et al. (2014) — The contribution of smartphones to the evaluation of environmental noise. ICSV21.
Murphy E., King E.A. (2016) — Smartphone-based noise mapping. Science of The Total Environment 562, pp. 852–859. DOI.

13. Próximos Passos

Etapa 1 — Repetição com mic MEMS

Realizar 3–5 sessões adicionais em diferentes condições (dia/noite, rua calma/via arterial) para confirmar o padrão de não-linearidade e avaliar repetibilidade do offset.

Etapa 2 — Medição com Dayton iMM-6C (USB-C)

Repetir o protocolo utilizando o microfone externo calibrado. Metas de desempenho:

  • R² > 0.90 (vs 0.08 do MEMS)
  • MAE < 2 dB (vs 6.8 dB do MEMS)
  • Leq Δ < 1 dB (vs −5.5 dB do MEMS)
  • Faixa L10–L90: erro < 2 dB em cada descritor

Etapa 3 — Tripla comparação (MEMS × iMM-6C × Svantek)

Medição simultânea com os três equipamentos para quantificar o ganho de precisão do microfone externo e definir curva de calibração por faixa de SPL.

Etapa 4 — Protocolo de calibração cruzada

Com base nos resultados, estabelecer procedimento operacional para smartphones equipados com iMM-6C, viabilizando o adensamento da malha de medições de ~2.2 para ~5+ pontos/km².