Testes Comparativos
Avaliação de precisão: Sonômetro Classe 1 vs Smartphone
1. Introdução
Este documento apresenta os resultados do primeiro teste comparativo entre o sonômetro Svantek 971A (Classe 1, IEC 61672-1) e o microfone MEMS interno de um smartphone Samsung Galaxy A55, utilizando o Calibrador Web (PWA) como software de captura.
O objetivo é quantificar a precisão do smartphone como instrumento de medição de ruído ambiental urbano e identificar as limitações do microfone interno, como etapa preparatória para testes com o microfone externo calibrado Dayton Audio iMM-6C (USB-C, omnidirecional).
Sonômetro Classe 1, IEC 61672
Mic. calibrado USB-C (próxima etapa)
Local: Belo Horizonte, MG — ponto fixo (−19.925°, −43.937°)
Amostragem: LAeq 1s (ambos os instrumentos)
Pares válidos: 359 (overlap de 358s, tolerância 0.6s)
2. Metodologia
O Svantek 971A (referência Classe 1) e o smartphone foram posicionados lado a lado, com os microfones a ~10 cm de distância, orientados na mesma direção. Ambos registraram LAeq a cada 1 segundo durante ~7 minutos em ambiente externo urbano.
Sincronização temporal
Os relógios não foram sincronizados previamente. O alinhamento foi feito por nearest-neighbor matching com tolerância de 0.6s, resultando em 359 pares válidos de 433 leituras do Svantek (83%).
Descritores estatísticos
Além do pareamento segundo-a-segundo, foram calculados descritores acústicos padronizados (ISO 1996-2):
- Leq — nível equivalente contínuo (média energética)
- L10 — nível excedido 10% do tempo (ruído de pico)
- L50 — mediana (nível excedido 50% do tempo)
- L90 — nível excedido 90% do tempo (ruído de fundo)
- L95, Lmin, Lmax — extremos da distribuição
3. Descritores Leq e Ln
| Descritor | Svantek (dB) | Celular (dB) | Δ (dB) | Avaliação |
|---|---|---|---|---|
| Leq | 67.8 | 62.3 | −5.5 | Ruim |
| L10 | 63.6 | 58.0 | −5.6 | Ruim |
| L50 | 56.5 | 54.0 | −2.5 | Bom |
| L90 | 44.6 | 43.0 | −1.6 | Bom |
| L95 | 44.1 | 42.0 | −2.1 | Bom |
| Lmin | 42.6 | 40.0 | −2.6 | Bom |
| Lmax | 87.4 | 80.0 | −7.4 | Ruim |
Faixa dinâmica (L10−L90): Svantek = 19.0 dB | Celular = 15.0 dB (compressão de 21%)
4. Métricas de Erro
| Métrica | Todos os pares (N=359) | Sem outliers |Δ|≤15 dB (N=315) |
|---|---|---|
| MAE | 6.8 dB | 4.5 dB |
| RMSE | 9.8 dB | 5.5 dB |
| Bias (cel−sv) | −1.2 dB | −1.1 dB |
| R² | 0.076 | 0.379 |
Erro por faixa de SPL
| Faixa (dB) | N | Offset médio | Std | Avaliação |
|---|---|---|---|---|
| 40–50 | 148 | +5.4 dB | 9.7 | Inflação |
| 55–60 | 142 | −3.2 dB | 2.0 | Aceitável |
| 60–65 | 31 | −4.7 dB | 3.1 | Limítrofe |
| 65–70 | 6 | −11.6 dB | 1.5 | Saturação |
| 70–80 | 22 | −20.6 dB | 3.1 | Saturação severa |
| 80–90 | 4 | −24.9 dB | 3.6 | Saturação total |
5. Inferências
1. Compressão não-linear acima de 65 dB
O microfone MEMS satura progressivamente: na faixa 70–80 dB o offset médio é de −20.6 dB, e acima de 80 dB chega a −24.9 dB. O Leq (dominado energeticamente pelos picos) sofre erro de −5.5 dB, enquanto o L90 (ruído de fundo, 40–50 dB) tem erro de apenas −1.6 dB.
2. Faixa dinâmica comprimida
O Svantek registra L10−L90 = 19.0 dB; o celular comprime para 15.0 dB. O MEMS subestima picos (L10: −5.6 dB) e infla mínimos, reduzindo a faixa dinâmica percebida em ~21%.
3. L50 como melhor indicador
A mediana (L50) apresenta o melhor equilíbrio: Δ = −2.5 dB, dentro da faixa aceitável para triagem urbana. O L90 (Δ = −1.6 dB) também é confiável.
4. Leq comprometido pelo efeito de saturação
O Leq energético é dominado pelos picos (caminhões, ônibus). Como o MEMS comprime justamente esses picos, o Leq do celular (62.3 dB) fica 5.5 dB abaixo do Svantek (67.8 dB) — erro inaceitável para fins normativos.
5. Calibração por offset fixo é insuficiente
O app aplica offset de ~94.0 dB (dBFS → dB). O offset ideal seria ~95.2 dB, mas a variabilidade (σ = 9.7 dB) torna a correção linear inadequada para a faixa completa. Uma curva de correção não-linear seria necessária para o mic MEMS.
6. O papel da captação omnidirecional
O microfone MEMS do smartphone não é projetado para medição acústica: sua captação é influenciada pela posição do aparelho, pelo corpo do dispositivo (que causa difração e sombreamento acústico acima de 2 kHz) e por algoritmos de cancelamento de ruído e beamforming que alteram o sinal antes de chegar à Web Audio API.
O Dayton Audio iMM-6C emprega uma cápsula eletreto condensadora de 6 mm com padrão polar verdadeiramente omnidirecional: capta pressão sonora de todas as direções com resposta uniforme (±0.5 dB, 18–20 kHz). Isso é um requisito da IEC 61672-1 para medição de ruído ambiental, onde o som chega de múltiplas fontes simultâneas (tráfego, pedestres, comércio, fauna) sem direção preferencial.
O que significa captação omnidirecional?
Um microfone omnidirecional responde igualmente à pressão sonora independente do ângulo de incidência. Na prática, o operador não precisa apontar o microfone — qualquer orientação produz a mesma leitura (diferença < 0.5 dB), eliminando o erro de posicionamento que afeta o MEMS.
Por que isso viabiliza a coleta com smartphone?
- Sem processamento intermediário: o iMM-6C possui ADC próprio (CM6542, THD+N: 0.001%) via USB-C, contornando o pré-amplificador do celular — a principal fonte de não-linearidade observada neste teste.
- Faixa dinâmica de ~30 a 120 dB, cobrindo desde ambientes silenciosos (parques, L90 ~40 dB) até vias arteriais com tráfego pesado (L10 ~75 dB).
- Calibração individual de fábrica + calibração cruzada com Svantek: permite offset fixo confiável (ao contrário do MEMS, onde o offset varia com o SPL).
- Precisão verificada em laboratório: ±0.2 dB de sensibilidade, resposta dentro dos limites IEC 61672 Classe I.
| Característica | Mic MEMS (interno) | Dayton iMM-6C |
|---|---|---|
| Padrão polar | Irregular (corpo do aparelho) | Omnidirecional (±0.5 dB) |
| Faixa útil | ~45–60 dB | ~30–120 dB |
| Linearidade | Não-linear (saturação >65 dB) | ±0.2 dB |
| ADC | Pré-amp do celular | CM6542 dedicado (USB-C) |
| Beamforming/ANC | Sim (altera sinal) | Não |
| Calibração | Genérica | Individual de fábrica |
| IEC 61672 | Não atende | Classe I (verificado) |
7. Estado da Arte — Precisão do Mic Interno
A literatura científica recente apresenta um padrão consistente com os resultados obtidos neste teste: o microfone MEMS interno dos smartphones satura acima de 65 dB e infla valores abaixo de 50 dB. A faixa de 50–60 dB é onde todos os estudos reportam melhor desempenho.
| Estudo | Resultado | Dispositivos |
|---|---|---|
| Kardous & Shaw (2016) — JASA | Sem mic externo: desvio 1.6 ± 3.8 dB (range −14 a +11.3). Com mic externo (iMM-6): ±1 dB |
iOS |
| Zamora et al. (2017) — Sensors | Após calibração linear: erro 0.02–0.03% (~0.1 dB), faixa 35–95 dB | Android |
| Khan et al. (2025) — Cureus | 9/10 apps Android com R² > 0.90 em níveis baixos; precisão degrada em SPL alto | Samsung A54 |
| NIOSH SLM (2024) — Sci. Reports | Com mic externo calibrado: ±1 dB(A), range 65–95 dB. Classe 2 IEC 61672 | iOS |
8. Abordagens de Calibração na Literatura
a) Offset fixo (mais simples)
Cada modelo de smartphone recebe um offset em dB determinado contra um sonômetro de referência. Funciona bem em faixa limitada (~20 dB de range). É o método que nosso Calibrador Web utiliza atualmente (~94 dB de offset).
b) Regressão linear por modelo
Zamora et al. (2017) aplicaram regressão linear (slope ~1.07) ao dBFS bruto. Após ajuste, o erro cai para <0.1 dB na faixa de operação. Requer medição com referência em 2–3 níveis de SPL (ex: 50, 70, 90 dB).
c) Calibração cruzada smartphone–smartphone
O projeto NoiseCapture (Univ. Gustave Eiffel / CNRS) implementa modo "Transmitter/Receiver": um smartphone calibrado calibra outros por comparação em ruído ambiente. O protocolo documentado leva ~5–10 minutos por dispositivo, com threshold de ±1 dB.
d) Calibração cega (sem referência)
Boumchich et al. (2024) propuseram o Natural Graph Model: quando múltiplos smartphones passam pelo mesmo local, suas leituras cruzadas permitem estimar o offset de cada um sem dispositivo de referência. Testado em Rezé (França) com 331 pares smartphone/usuário — erro médio de −3.4 dB com 100+ links por sensor.
e) Calibração por modelo de tráfego
Medir ruído de veículos passando e comparar com modelo numérico (ex: CNOSSOS-EU). O delta serve como offset — sem necessidade de sonômetro de referência. Abordagem prática para cidadãos sem equipamento.
9. Microfone Externo Calibrado — Evidências
O estudo de referência para validação de microfones externos em smartphones é Kardous & Shaw (2016), publicado no Journal of the Acoustical Society of America:
"O uso de microfones externos calibrados melhora dramaticamente a precisão e a precisão das medições de ruído baseadas em smartphone."
| Condição | Desvio médio | Range | R² |
|---|---|---|---|
| Mic interno MEMS | 1.6 dB | −14 a +11.3 dB | variável |
| Com Dayton iMM-6 | <1 dB | ±1 dB | >0.98 |
O iMM-6C (USB-C) é a evolução do iMM-6 (TRRS) testado nesse estudo — mesma cápsula eletreto de 6 mm, agora com ADC digital dedicado (CM6542) via USB-C, eliminando a variabilidade do pré-amplificador analógico do celular.
10. Projetos de Crowdsourcing com Smartphones
| Projeto | Escala | Calibração | Status |
|---|---|---|---|
| NoiseCapture (França) | 260K tracks, 60M leituras, 76K contribuidores | Cruzada + calibrador | Ativo, open-source |
| NoiseTube (Bélgica) | Pioneiro (2010) | Por modelo | Descontinuado |
| NIOSH SLM (EUA/CDC) | Ocupacional | Calibrador acústico | Ativo, iOS only |
O NoiseCapture, desenvolvido pela Universidade Gustave Eiffel e pelo CNRS, é a referência mais relevante para o nosso contexto: open-source, com protocolo de calibração documentado, e escala comprovada (260 mil medições, 76 mil contribuidores em 3 anos). Calcula os mesmos descritores que utilizamos (Leq, L10, L50, L90).
A diferença do nosso projeto é o foco em calibração cruzada com sonômetro Classe 1 e microfone externo USB-C, visando maior precisão que o crowdsourcing generalista.
11. Implicações para o Projeto
Com base na revisão da literatura, a estratégia mais promissora para adensar a malha de medições em Belo Horizonte (de ~2.2 para ~5+ pontos/km²):
- iMM-6C + offset fixo — a literatura confirma que com microfone externo calibrado, offset fixo é suficiente para alcançar ±1 dB de precisão.
- Calibração cruzada com Svantek em 2–3 níveis de SPL para validar a linearidade do iMM-6C e determinar o offset ótimo.
- Protocolo NoiseCapture como referência para transferência de calibração entre smartphones equipados com iMM-6C.
- A-weighting em software — o Calibrador Web precisará implementar filtro digital A-weighting para compliance regulatória. Nenhum dos apps Android testados na literatura implementa esta funcionalidade.
12. Referências
13. Próximos Passos
Etapa 1 — Repetição com mic MEMS
Realizar 3–5 sessões adicionais em diferentes condições (dia/noite, rua calma/via arterial) para confirmar o padrão de não-linearidade e avaliar repetibilidade do offset.
Etapa 2 — Medição com Dayton iMM-6C (USB-C)
Repetir o protocolo utilizando o microfone externo calibrado. Metas de desempenho:
- R² > 0.90 (vs 0.08 do MEMS)
- MAE < 2 dB (vs 6.8 dB do MEMS)
- Leq Δ < 1 dB (vs −5.5 dB do MEMS)
- Faixa L10–L90: erro < 2 dB em cada descritor
Etapa 3 — Tripla comparação (MEMS × iMM-6C × Svantek)
Medição simultânea com os três equipamentos para quantificar o ganho de precisão do microfone externo e definir curva de calibração por faixa de SPL.
Etapa 4 — Protocolo de calibração cruzada
Com base nos resultados, estabelecer procedimento operacional para smartphones equipados com iMM-6C, viabilizando o adensamento da malha de medições de ~2.2 para ~5+ pontos/km².